Os refugiados climáticos estão redefinindo a crise migratória global

Tendências·4 min de leitura
Flooded rural landscape with partially submerged structures

O Banco Mundial estima que, até 2050, cerca de 216 milhões de pessoas poderão ser forçadas a deslocar-se dentro dos seus próprios países devido às alterações climáticas. Mas essa projeção já pode ser conservadora. Só em 2025, as catástrofes relacionadas com o clima deslocaram mais de 30 milhões de pessoas em todo o mundo, e um número crescente atravessa fronteiras internacionais em busca de segurança. O problema é que o direito internacional não os reconhece.

Os refugiados invisíveis

A Convenção sobre Refugiados de 1951 define refugiado como alguém que foge de perseguição baseada em raça, religião, nacionalidade, opinião política ou pertencimento a um determinado grupo social. As alterações climáticas não aparecem nessa lista. Como resultado, as pessoas deslocadas pela subida dos mares, secas prolongadas ou tempestades catastróficas não têm o direito legal de procurar asilo noutro país.

Esta lacuna jurídica tem consequências reais. Comunidades em nações insulares baixas do Pacífico, como Tuvalu e Kiribati, enfrentam a perspectiva de que os seus países inteiros se tornem inabitáveis ​​dentro de décadas. Os residentes da zona costeira do Bangladesh já estão a migrar em grande número para Dhaka e outros locais, à medida que a intrusão de água salgada destrói terras agrícolas. Na América Central, anos sucessivos de secas e furacões aceleraram a migração para o norte.

Onde o deslocamento climático está acontecendo

A crise é global, mas distribuída de forma desigual. A África Subsariana enfrenta alguns dos impactos mais graves. A bacia do Lago Chade, que sustenta cerca de 30 milhões de pessoas em quatro países, diminuiu 90% desde a década de 1960, provocando conflitos e deslocações. Na África Oriental, a seca no Corno de África que começou em 2020 deslocou mais de 2 milhões de pessoas na Somália, Etiópia e Quénia.

O Sul e o Sudeste Asiático são igualmente afetados. As catastróficas inundações de 2022 no Paquistão deslocaram 33 milhões de pessoas e as inundações recorrentes impediram que milhões de pessoas regressassem a casa. O Delta do Mekong, no Vietname, uma das regiões agrícolas mais produtivas do mundo, está a perder terras devido à subida dos mares a um ritmo acelerado.

Os pequenos estados insulares em desenvolvimento enfrentam uma ameaça existencial. Tuvalu assinou um acordo com a Austrália em 2023 que oferece residência aos seus 11.000 cidadãos se a nação insular se tornar inabitável, mas este tipo de acordo bilateral continua a ser a excepção e não a regra.

O vácuo político

Os esforços para criar um quadro jurídico para os migrantes climáticos estagnaram a nível internacional. O Pacto Global sobre Refugiados, adotado em 2018, reconhece as alterações climáticas como um fator de deslocação, mas não chega a criar novas categorias ou obrigações jurídicas. Alguns juristas defendem um novo protocolo internacional que aborde especificamente o deslocamento climático, mas os principais países receptores mostraram pouca vontade de expandir as suas obrigações.

Algumas nações tomaram medidas unilaterais. A Nova Zelândia criou uma categoria especial de vistos para os habitantes das ilhas do Pacífico deslocados pelas alterações climáticas, embora a aceitação tenha sido limitada. Argentina e Brasil introduziram vistos humanitários para pessoas que fogem de desastres ambientais. Mas estas são exceções num cenário definido pela inação.

O custo humano

Por trás dos debates políticos há milhões de histórias individuais de perdas. Os agricultores que já não podem cultivar nas terras das suas famílias trabalham há gerações. Pescadores cujas capturas desapareceram à medida que a temperatura dos oceanos aumentou. Famílias forçadas a escolher entre permanecer num ambiente cada vez mais perigoso ou recomeçar do zero num lugar onde não têm estatuto legal.

O deslocamento climático também afeta desproporcionalmente mulheres e crianças. O Centro de Monitorização de Deslocados Internos relata que as mulheres chefiam cerca de 75 por cento dos agregados familiares deslocados pelo clima e enfrentam riscos acrescidos de violência baseada no género, exploração e perda de acesso à educação e aos cuidados de saúde.

O que precisa mudar

Os especialistas concordam amplamente sobre várias etapas necessárias. Em primeiro lugar, a comunidade internacional deve estabelecer o reconhecimento legal para as pessoas deslocadas pelo clima, seja através de uma alteração aos quadros de refugiados existentes ou de um novo tratado específico. Em segundo lugar, as nações mais ricas que mais contribuíram para as alterações climáticas devem aceitar uma maior responsabilidade no acolhimento e apoio às populações deslocadas. Terceiro, o investimento na adaptação climática em regiões vulneráveis pode reduzir o número de pessoas que são forçadas a deslocar-se.

A lacuna entre o que é necessário e o que está acontecendo continua enorme. À medida que a crise climática se acelera, o número de pessoas deslocadas só aumentará. A resposta do mundo com política ou indiferença definirá um dos grandes desafios humanitários deste século.

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