Escândalo de roubo no Museu Britânico: como um funcionário roubou 350 impressões ao longo de décadas

O Museu Britânico, uma das instituições culturais mais visitadas do mundo, está a enfrentar um escrutínio renovado após a publicação de um livro que fornece o relato mais detalhado de sempre sobre como um funcionário de confiança conseguiu roubar mais de 350 gravuras, desenhos e pequenos artefactos ao longo de um período que abrange décadas. As revelações reacenderam o debate sobre as práticas de segurança nos principais museus e a vulnerabilidade das coleções que são demasiado vastas para serem catalogadas na íntegra.
O Roubo
O escândalo tornou-se público pela primeira vez em 2023, quando o museu demitiu Peter Higgs, curador sênior do departamento Grego e Romano que trabalhava na instituição há quase 30 anos. Uma investigação interna, motivada por uma denúncia de um negociante de arte que notou peças de museu à venda no eBay a preços suspeitosamente baixos, revelou um padrão de roubo que remonta pelo menos ao final da década de 1990.
Higgs tinha acesso a depósitos contendo milhares de itens que não estavam em exibição pública e, o que é mais importante, nunca haviam sido fotografados ou inseridos em um catálogo digital. Isso lhe permitiu remover peças sem provocar qualquer discrepância de estoque, porque não existia nenhum registro para comparação. Os itens roubados incluíam pedras preciosas antigas, fragmentos de joias de ouro e gravuras da era renascentista, com um valor combinado estimado em milhões de libras.
O que o novo livro revela
Um livro publicado este mês pela jornalista investigativa Catherine Scott baseia-se em entrevistas com membros do museu, autoridades policiais e negociantes de arte que, sem saber, manuseavam bens roubados. O relato pinta um quadro de complacência institucional que vai muito além do comportamento criminoso de um indivíduo.
De acordo com o relato de Scott, colegas levantaram preocupações informais sobre Higgs já em 2005, notando sua presença incomumente frequente fora do horário comercial em áreas de armazenamento e seu aparente conhecimento de itens que normalmente não são de sua competência curatorial. Essas preocupações nunca foram formalmente investigadas. A cultura interna do museu, argumenta Scott, priorizou a reputação acadêmica e a harmonia institucional em detrimento de protocolos de segurança rigorosos.
O livro também revela que o sistema de gestão do acervo do museu estava alarmantemente desatualizado. Em 2023, cerca de 2 milhões dos cerca de 8 milhões de objetos do museu nunca haviam sido catalogados digitalmente. Sem um registro abrangente do que o museu realmente possuía, identificar itens perdidos era essencialmente impossível, a menos que alguém notasse uma ausência.
Falhas de segurança
Consultores de segurança independentes que analisaram as práticas do museu depois que o escândalo se tornou público identificaram diversas falhas sistêmicas. As salas de armazenamento contendo itens valiosos eram acessíveis ao pessoal usando sistemas básicos de cartão-chave com registro limitado. Não havia câmeras CCTV na maioria das áreas de armazenamento. As verificações de bagagem dos funcionários que estavam saindo eram inconsistentes e raramente realizadas para funcionários seniores.
Talvez o mais crítico seja o fato de o museu não ter um processo de auditoria de rotina para itens armazenados. As galerias de exibição são verificadas regularmente, mas a grande maioria da coleção de qualquer grande museu fica armazenada a qualquer momento. No Museu Britânico, os itens podem ficar sem controle por anos ou até décadas.
O conselho de administração do museu encomendou uma revisão independente após o escândalo, liderada pelo ex-juiz Sir Nigel Boardman. Essa revisão, publicada no final de 2024, fez 39 recomendações para melhorar a gestão e a segurança das coleções, incluindo a catalogação digital obrigatória de todos os itens, controles de acesso aprimorados e auditorias regulares de verificação pontual das coleções armazenadas.
O esforço de recuperação
O museu lançou uma operação intensiva de recuperação, trabalhando com a polícia, negociantes de arte e mercados online para rastrear e recuperar itens roubados. No início de 2026, aproximadamente 270 das mais de 350 peças roubadas conhecidas foram recuperadas. Alguns foram devolvidos por compradores que os compraram de boa fé através de leilões online, enquanto outros foram rastreados através de redes de revendedores em toda a Europa.
No entanto, dezenas de itens continuam desaparecidos e o museu reconheceu que a verdadeira extensão do roubo poderá nunca ser totalmente conhecida. Sem uma catalogação abrangente, é impossível confirmar se itens adicionais foram levados, mas nunca identificados como desaparecidos.
Higgs foi preso, mas negou todas as acusações. Seu julgamento criminal deverá prosseguir ainda este ano. Os observadores jurídicos observam que o processo pode ser complicado pelas falhas de manutenção de registros do próprio museu, o que torna difícil estabelecer prazos definitivos de procedência e propriedade para alguns itens.
Um problema mais amplo
O caso do Museu Britânico, embora de escala extrema, não é único. Museus em todo o mundo têm enfrentado roubos internos, e especialistas em segurança dizem que a vulnerabilidade fundamental é a mesma em todos os lugares: coleções grandes demais para serem totalmente catalogadas, combinadas com sistemas de acesso baseados em confiança que pressupõem a honestidade dos funcionários.
O Smithsonian Institution em Washington, D.C. conduziu uma revisão dos seus próprios protocolos de segurança após o escândalo do Museu Britânico e reconheceu lacunas nos seus sistemas de monitorização de armazenamento. Vários museus nacionais europeus iniciaram ou aceleraram projetos de catalogação de forma semelhante.
Reconstruindo a confiança
Para o Museu Britânico, o caminho a seguir envolve não apenas recuperar objetos roubados e melhorar a segurança, mas também reconstruir a confiança do público. O diretor do museu, Mark Jones, que assumiu o cargo após o escândalo, prometeu total transparência sobre as reformas da instituição e comprometeu-se a concluir um catálogo digital de toda a coleção até 2030.
A questão agora é se este incidente servirá como um catalisador duradouro para a mudança em todo o setor museológico global, ou se a inércia institucional que permitiu o roubo acabará por se reafirmar quando as manchetes desaparecerem.


